A noite cai.
Os céus mergulham na escuridão.
Mais uma noite negra,
O sol recolhe-se,
Cobre-se com o manto negro do seu luto feito de estrelas.
Todos temem a noite.
Todos temem estar longe da luz.
Todos temem perder-se
….
Ouve-se.
Sente-se.
…
Respira-se.
Abrem-se olhos.
Para o vazio.
Mas a noite é cheia.
Ela sabe.
Na noite encontra-se o que se perdeu.
Encontra-se
o silêncio de uma ausência, a companhia da lua e das estrelas,
longe e perto,
fazem a diferença num céu escuro.
Ela tem medo.
Tem medo, claro.
Medo como todos têm.
Medo de ficar só.
Medo de não ter tempo.
Medo de não ser.
…
Oh, mas a noite permite sonhar.
Permite ser
o que não se pode ser
quando os olhos todos nos observam à luz do dia.
O dia clareia as ilusões. Revela que o que víamos belo é somente real.
Real como um toque.
Real como a dor.
O dia mostra que não podemos sonhar sempre.
A realidade quer submeter-nos. A realidade quer tornar-nos reais.
Mas quem disse que temos de o ser?
Tão reais como um corpo?
Tão reais como a chuva?
Não somos muito mais que isso?
Não há em nós mais do que aquilo que a luz mostra?
O nosso corpo, os nossos olhos, o nosso sorriso são luz.
A nossa alma é escuridão profunda, algo muito para lá do visível.
Mãos lutam para a agarrar, para ter um pedaço, para saber o que vai nela. Há quem lute para a esconder. Há quem lute para a eliminar.
Há quem finja não a ter.
Há quem acredite que ela espreita pelos olhos.
Há quem a queira mostrar, assim, tal como ela é. Mas ninguém a conhece. Mistério como a noite, como o negro em qualquer cor.
Porquê ter medo?
Porquê temer o olhar que nos lançam?
Porquê temer a diferença?
Não somos todos diferentes nesse lugar efémero e eterno que queremos esconder e mostrar ao mesmo tempo, com tanta ansiedade?
Que mal faz sonhar?
Querer.
É tudo o que sabemos fazer, é tudo o que nos torna humanos.
Essa escuridão da alma é o querer em todos.
Guardamos em nós, o bom, o mau. Não importa. Nada disso importa.
No fundo, só queremos ser tocados e queridos de volta.
Queremos sentir num momento o significado de sentir e de viver e saber porque viver vale algo – tem de valer, é tão pouco tempo!
Um dia voltaremos, sei lá!
Talvez a minha mão já tenha segurado a tua antes. Talvez os nossos corações tenham caminhado lado a lado. Talvez os meus olhos e os teus se tenham encontrado. Talvez, com eles, as nossas escuridões se tenham tocado em busca da luz.
Nesta vida damos as mãos.
Mais uma vez.
Outra vez.
A primeira.
A última.
A única.
Seguro-te, tu seguras-me.
Choro, tu choras e tentas sorrir.
Choras, eu choro e tento entender.
Amarramos as asas dos sonhos que sonhámos e ao mesmo tempo soltamo-las, libertamo-las da prisão dos dias e abrimo-las no ar, voamos na noite. E somos.
...
eu…
Escrevo. As palavras sucedem-se. Atropelam-se. A conexão entre as minhas mãos e a minha alma é próxima, as palavras vêm em meu auxílio.
Como fino véu,
entre elas e eu
não há mais nada.
Alma assim exposta, entrego-me e condeno-me, mas é tudo o que sei fazer.
Tenho medo.
Quero voar.
Escrevo – e ainda tenho medo
e consigo voar.
Quem sou eu sem elas, palavras da minha alma, não sei. Que elas estão em mim e eu sou nelas, é tudo o que sei. O meu dom é a minha maldição também.
Sou espírito que se comove com o vento.
Que acredita em fadas.
Que sonha magia.
Que acredita no amor.
Sou espírito que se move com o vento.
Que é frágil como finas asas.
Que é como floresta ardida.
Que tem medo de ser amada.
Sou como o ar. O ar invisível e indomável. O ar incontrolável. O ar que vive e deixa viver. Sou como o ar que foge e escapa. Mas que volta sempre. E acaricia. E envolve. E cobre tudo. E leva para longe as lágrimas, as palavras duras, as dores de almas desoladas. E as trás de volta.
O meu dom é a minha maldição, mas é um dom.
É o meu dom.
O meu dom de ser ar, de ser vento, de sonhar ser fada, ser princesa num castelo de nada. É o meu dom. De ser a escrever. De criar e fazer viver.
É o meu dom. De ser poder, ser sopro de vida. Ser voz, ser nome próprio. Ser vento que não deixa a árvore descansar e ao mesmo tempo é a sua mais fiel companhia.
É o meu dom. De falar, de dizer, de tentar dizer o que sinto. De não calar, revelar, descobrir e ver.
É o meu dom. De procurar ver e tentar chegar mais longe.
Como ar busco o oculto, o invisível aos olhos, as minhas mãos buscam agarrar o sentimento mais puro. A pura bondade de alguém. A pura beleza de uma voz. A pura melodia.
Buscar, a minha busca é eterna e infinda!
Tenho caminho, procuro-o, quero segui-lo.
Mas o ar está condenado a poder seguir por todos os lados.
E o seu caminho não tem destino...
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